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Síntese crítica da Educação Brasileira

 

Paulo Nathanael P. de Souza

 

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Falemos algo sobre a crise, que desde muitos anos, se abate sobre a educação brasileira. Já destaquei no meu livro “Caminhos e descaminhos da educação brasileira”, publicado pela editora Integrare, do saudoso amigo Içam Tiba, não só um diagnóstico do estado da arte dos sistemas de ensino, como também algumas sugestões de cura da grave enfermidade, que afeta a nossa educação como um todo. De lá para cá, se algo mudou não terá sido para melhor, como se verá em seguida.

Vivemos a idade de conhecimento ou, como querem outros, da informação. Sua característica principal é a velocidade, que torna obsoleto em curto prazo, aquilo que, no passado, levava anos – e até séculos – para reclamar mudanças. O conflito entre ensino tradicional e o exigido pelos novos tempos está na raiz dessa crise. Assim é que a herança cultural da humanidade, que se constituiu até aqui, na matéria prima da educação tradicional praticada pelas redes escolares brasileiras, em todos os graus e tipos de ensino, está a envelhecer com incrível rapidez. E já não consegue sozinha explicar nem as indagações filosóficas dos nossos tempos, nem quais atitudes e saberes são os exigidos por um futuro cada vez mais presente. Por isso vai ela, pouco a pouco, convertendo-se em conhecimentos do tipo museológico. E o que restou a educadores, intelectuais, empresários e lideres de todo país é constatar a força dessa realidade, que nos rodeia, e que de todos cobra novos compromissos para tentar compreende-la, dominá-la e utilizá-la no benefício geral. O mundo de ontem, tomado como modelo único pelas escolas de hoje, terá pouca validade para os que deverão viver amanha.

No Brasil, essa crise se agrava continuamente, dada as carências que crescem na rede escolar, da creche àpós graduação. O grande caminho para se alcançarem os novos padrões de convívio entre a inteligência humana e a busca das novas verdades desse “Admirável mundo novo” para usar a expressão cunhada por Aldous Huxley, passa necessariamente pela educação. Não pela educação tecnoburocrática, organizada pela visão conservadora e controladora de educadores e administradores de plantão, a qual se referência mais pelo passado do que pelo presente, e se projeta inevitavelmente na organização de um sistema de ensino cada vez mais esclerosado e “diarioficializado”. Mas, sim, pela educação voltada para as novas necessidades, para os novos saberes, para as novas tecnologias em que a liberdade e a criatividade de alunos e professores devem conduzir o processo de aprendizagem, em contraste com o pedagogismo de regas rígidas e quase sempre inúteis, fixadas pelos órgãos superiores de administração dos sistemas e por professores não raro formados por faculdades que não inovam. No que diz respeito à didática, cada escola, daqui para o futuro, deve transitar do “magister dixit” dos discursos em sala de aula, para ambientes de discussão, pesquisa, consonância e dissonância em que a “internet” e as bibliotecas se associarão aos mestres no apoio a construção do saber, mestres esses que deverão atuar como maestros frente da orquestra, inspirando, coordenando, articulando e avaliando o produto final do ambicionado conhecimento, sempre conectados em tempo real com as antenas do mundo de amanhã. Trata-se de reviver uma espécie de maiêutica socrática, em que as duvidas e indagações prevalecem sobre as certezas. Ressuscitar um Sócrates, modelo século XXI, e construir um tipo de autodidaxia da aprendizagem, conforme diz o OxfordianoPickering, que exige do ensino formal contemporâneo, que transforme “cada aluno em um autodidata para a vida toda”.

Daí porque, em plena era do conhecimento, o povo brasileiro continua deseducado e, o que é curioso, até mesmo as elites, não mais conseguem concluir suas escolaridade com uma educação recortada segundo os reclamos atuais. Isso ocorre justamente no momento em que o saber, como dizia Bacon, já no século 16, passou a ser o poder. Isto vale tanto para o cidadão comum, como para as nações no seu convívio global. É preciso ter modernidade e funcionalidade, que são as duas faces da qualidade do ensino. A UNESCO chama isso de pertinência. A educação brasileira carece de pertinências.

Façamos, tão rapidamente quão possível, um sobrevoo sobre os graus de ensino dos nossos sistemas educacionais. Primeiro, no que diz respeito à chamada educação infantil, composta de creches e pré escolas. São graus de ensino que respondem pela prontidão escolar das crianças entre zero e cinco anos. Cada real que se gaste com esses mecanismos de preparação para o inicio da aprendizagem forma corresponde à economia de muitos reais no decorrer da escola fundamental, porque são eles o antídoto para as atuais reprovações. Não há, ainda, uma avaliação consistente sobre esses graus de escolaridade, quanto a sua pertinência, mas a observação dos órgãos competentes sobre as ilhas desse ensino, nos sistemas brasileiros de educação, tem sido animadores. Para universalizar as creches e as pré escolas em todo o Brasil, há que criar 7 milhões de vagas, no primeiro caso (correspondentes a duas populações do Uruguai) e não menos que 3 milhões no segundo. Mas, é preciso reconhecer que o país andou muito no atendimento a estes níveis de escolaridade a partir do ano de 2000.

No que toca à alfabetização, o panorama não é nem um pouco risonho. As escolas de ensino fundamental, que, no ano passado, alfabetizaram crianças no decorrer da primeira série desse nível de escolaridade, hoje não conseguem fazer-lo nem mesmo nos três primeiros anos desse curso. E tudo por culpa das polemicas de funcho ideológico que tomaram de assalta as universidades e faculdades, que ministravam as licenciaturas de pedagogia. Várias correntes disputam a primazia dessa atividade e, com isso, são poucos os mestres que ainda sabem com êxito, alfabetizar crianças. A mim me parece que são polêmicas indefensáveis, eis que não importa o método de alfabetização utilizado pelos mestres, o que importa é ter todas as crianças alfabetizadas ao fim da primeira série do ensino fundamental. Ou, como dizia aquele presidente chinês em relação ao regime econômico, que deveria praticar-se em seu país: Não importa a cor do gado, desde que continue a caçar os ratos!

Por essas e outras razões, o processo de alfabetização entrou em decadência entre nós e surgiram milhões de analfabetos funcionais, a obterem diplomas nos graus posteriores de ensino, sem saber ler, escrever e contar com razoável aceitabilidade. É lei dos comboios aquela que determina ser a nave mais lenta a determinante da velocidade de todo o conjunto, que vai aos poucos, contaminado todos os graus de escolaridade no Brasil, a ponto de o fracasso dos alunos se ir multiplicando do ensino fundamental até o superior.

A situação é tão mais grave quanto é verdade que o ensino fundamental deveria ser o mais qualificado de todos, eis que é a única escolaridade que terá a maioria dos cidadãosbrasileiros. Não é o que ocorre e, com isso as deficiências iniciais dos alunos se irão potencializando nos graus futuros de escolaridade e as escolas, por sua vez, vão rebaixando, de ano a ano, o seu teor de pertinência. Éa nave mais lenta a conduzir o sistema como um todo!

Veja-se, por exemplo, o que acontece com o ensino médio: a metade dos formados no fundamental nele não se matricula e aqueles que o fazem se vão evadindo ao longo do curso. Com isso cria-se a multidão dos nem, nem (nem estudam, nem trabalham), que hoje, prospera no país. Mostram as pesquisas que o motivo maior de abandono dos estudantes nesse nível, se deve ao fato de o ensino dado nesses colégios nada tem a ver com as aspirações dos jovens e/ou com seu necessário preparo para o mercado de trabalho. O melhor termômetro para medir a qualidade desse grau de escolaridade, é o chamado PISA (Programa internacional de avaliação de estudantes), patrocinado pelo OCDE e do qual o Brasil participa como convidado, a cada dois anos. Os alunos devem ter no mínimo 15 anos e as provas versam sobre matemática, ciências e língua vernácula. Pois o Brasil, desde que existe o Pisa (anos 2000) tem sempre ficado no ultimo terço da classificação, do qual participam pouco mais de sessenta países. Recentemente, em 2017, fez-se no Brasil uma reforma do ensino médio, em que os currículos foram mudados e a duração do período letivo diário deveria ser o tempo integral. Essa reforma não implementada ainda, dorme nas gavetas do MEC e, dadas as dificuldades econômicas que ora atacam o país, creio que não vai acordar tão cedo!

O ensino superior é o grande herdeiro disso tudo e também enfrentainúmeras dificuldades para datar seus cursos de uma melhor qualificação. A partir da reforma havida em 1968, deu-se a explosão expansionista do ensino superior privado, que muito contribui, com algumas raras exceções, a piorar o nível desse grau de escolaridade. De norte a sul, de leste a oeste, não faltaram aventureiros para abrir faculdades disto e daquilo. Muitas fecharam, outras se fundiram entre si e algumas conseguiram crescer para se tornarem universidades. Passados tantos anos, a lei doscomboios ainda vige no seu precário funcionamento. Apesar das reformas e de medidas saneadoras que vêm periodicamente sendo tomadas pelo governo, nos últimos anos, o ensino superior brasileiro, vem funcionado exceção feita a algumas instituições com as mesmas características daquela primeira faculdade de medicina fundada por Dr. João, o Príncipe Regente, a saber! predominância de cursos isolados, objetivos profissionalizantes e clientela elitizada. Quanto à pertinência ainda, salvo este ou aquele caso, deixa a rede de ensino superior muito a desejar.

Aqui cabe uma pergunta: será que haverá salvação para essa educação tão perpassada de negatividades? E minha resposta é sempre esta: Claro que sim. Primeiro porque muitos dos países, hoje, prósperos e primeiromundistas passaram por agruras semelhantes às nossas, e, depois, porque o desenvolvimento sócio-economico, que consta como aspiração nacional prioritária na Constituição em vigor, não se faz sem que a população como um todo não se tenha valido de uma educação de qualidade. Ademais somos educadores e ninguém educa se, permanentemente, não conseguir manter em alta as suas esperanças.

 

 

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